segunda-feira, novembro 24, 2008

Psicologizando 4

Psicodinâmica e Sacrodinâmica -parte 4 (final)
Conclusão
Procuramos destacar a impor-tância da fé como fator crucial para o desenvolvimento humano. As pesquisas que apontamos enfatizam sempre que ela não é estática. Ao contrário, a fé goza de um dinamismo que lhe é próprio e a impulsiona a estágios evolutivos em que alcança expressão cada vez maior. Isso se dá em articulação com o desenvol-vimento global do ser e, em particular, com as etapas do desenvolvimento psicológico. Aventamos a hipótese de que correntes teóricas da psicologia, tais como a psicanálise e outras, falharam exatamente em não atentar para a plasticidade e a riqueza dinâmica da fé. Tendo sido concebidas a partir de dados colhidos em situações clínicas, o que pressupõe prioridade a conteúdos regressivos, elas se depararam com expressões deformadas e imaturas de fé, que foram tomadas de maneira generalizada. Por outro lado, escolas psicológicas que valorizaram o desenvolvimento saudável e a progressão à maturidade foram mais felizes em reconhecer o lugar da fé. Estas últimas continuam estimulando pesquisas que esclarecem o lugar da fé na estruturação da personalidade. A fé é um fenômeno universal. Recorrendo ainda a Fowler, encontramos os seguintes esclareci-mentos: "A fé é uma preocupação humana universal. Antes de sermos religiosos ou irreligiosos, antes de nos concebermos como católicos, protestantes, judeus ou muçulmanos, já estamos engajados em questões de fé. Quer nos tornemos incrédulos, agnósticos ou ateus, estamos preocupados com as formas pelas quais ordenamos a nossa vida e com o que torna a vida digna de ser vivida. Além disso, procuramos algo para amar, e que nos ame; algo para valorizar, e que nos dê valor; algo para honrar e respeitar, e que tenha o poder de sustentar nosso ser"24. (p.16).
A aventura da fé molda e impulsiona nossas trajetórias de vida. O referencial maior encontramos na personalidade ímpar de Jesus Cristo, exemplo de fé madura e integridade pessoal. Em nome dele "a comunidade cristã, através da história, tem convidado a humanidade a enfrentar as crises das experiências limite de cada estágio da vida com a resposta da fé, isto é, a conversão; a Bíblia mesma nos coloca o desafio da ´metanoia´, conversão, uma mudança da mente" 25.(tradução do autor)
Uriel Heckert é Médico Psiquiatra e Professor Universitário em Juiz de Fora, e presidente nacional do CPPC

1 TILLICH, Paul. Dinâmica da fé. Trad. de Walter Schlupp. Ed. Sinodal, São Leopoldo, 1974, p. 13.
2 FOWLER, James W. Estágios da fé. Trad. de Júlio Paulo T. Zabatiero. Ed. Sinodal, São Leopoldo, 1992, p.15.
3 id. ibid., p.22.
4 ELLENS, J.Harold The ulfolding christian self. In: ADEN, LeRoy; BENNER, David G.; ELLENS, J. Harold (org.) Christian perspectives on human development. Baker Book House, Grand Rapids, MI, 1992, p.141.
5 TILLICH, Paul, op.cit.
6 FOWLER, James W., op.cit.
7 HERNÁNDEZ, Carlos J. O lugar do sagrado na terapia. Trad. de Therezinha F. Privatti. Ed. Nascente/CPPC, São Paulo, 1986.
8 FREUD, Sigmund; PFISTER, Oskar. Cartas. Trad. de Karin H. Wondracek. Ed. Ultimato, Viçosa, 2000.
9 FRANKL, Viktor E. A presença ignorada de Deus. Trad. de Esly R.S.C. Hoersting, Zilda C. de Souza e Walter Schlupp. Ed. Imago/Sinodal/Sulina, Porto Alegre, 1985, p. 48.
10 TILLICH, Paul, op. cit., p. 8.
11TOURNIER, Paul El personaje y la persona. Trad. de Viviana Hanono. Ed. La Aurora, Buenos Aires, 1974.
12 ______________ La aventura de la vida. Trad. de Graziela Baravalle. Ed. La Aurora, Buenos Aires, 1976, p.287.
13 HERNÁNDEZ, Carlos J., op. cit., p.18.
14 ELLENS, J. Harold, op.cit., p.129.
15 ADEN, LeRoy Faith and the developmental cycle. In: ADEN, LeRoy; BENNER, David G.; ELLENS, J. Harold (org.) Christian perspectives on human development. Baker Book House, Grand Rapids, MI, 1992, p.33.
16 FOWLER, James W., op. cit., p.201-212.
17 id. ibid., p.107.
18 id. ibid., p.129.
19 id. ibid., p.147.
20 id. ibid., p.167.
21 id. ibid., p.169-170.
22 BONAVENTURE, Leon Apresentação. In: BÜRKI, Ago Fillenz Não sou mais a mulher com quem você se casou. Trad. de João Rezende Costa. Ed. Paulus, São Paulo, 1997, p.5.
23 ELLENS, J. Harold, op. cit., p.143.
24 FOWLER, James W., op. cit., p.16.
25 ELLENS, J. Harold, op. cit., p.142.

1 conversando:

prjulio disse...

Não tem como não ver esse dinamismo da fé, ao ponto de acontecimentos considerados sobrenaturais perderem este significado e acabam sendo considerados por aquele que cresce em fé como natural, até corriqueiro.
O próprio Deus recusou-se a dar-se um nome que pudesse ser cristalizado no passado. Sua definição é tão volátil que não pode ser articulada. Ele é o Deus do agora. Do agora, não,do agora, não, do agora. Ele é movimento, é o sempre novo "Eu Sou".