segunda-feira, novembro 03, 2008

Ensaio sobre a cegueira

"Sempre estamos mais ou menos cegos, sobretudo, para o fundamental"

"Onde estava todo esse dinheiro [desbloqueado para resgatar os bancos]? Estava muito bem guardado. Logo apareceu, de repente, para salvar o quê? Vidas? Não, os bancos"

"Marx nunca teve tanta razão como agora", ressaltou José Saramago, acrescentando que "as piores conseqüências ainda não se manifestaram".

Frases de José Saramago, numa entrevista sobre o lançamento em Lisboa do filme de Fernando Meirelles baseado no romance "Ensaio sobre a cegueira" de Saramago

Crise de humanidade

A crise econômico-financeira, presivísvel e inevitável, remete a uma crise mais profunda. Trata-se de uma crise de humanidade. Faltaram traços de humanidade minimos no projeto neoliberal e na economia de mercado, sem os quais nenhuma instituição, a médio e longo prazo, se agüenta de pé: a confiança e a verdade.
A economia pressupõe a confiança de que os impulsos eletrônicos que movem os papéis e os contratos tenham lastro e não sejam mera matéria virtual, portanto, fictícia. Pressupõe outrossim a verdade de que os procedimentos se façam segundo regras observadas por todos. Ocorre que no neoliberalismo e nos mercados, especialmente a partir da era Thatcher e Reagan, predominiou a financeirização dos capitais. O capital financeiro-especulativo é da ordem de 167 trilhões de dólares, enquanto o capital real, empregado nos processos produtivos (por volta de 48 trilhões de dólares anuais). Aquele delirava na especulação das bolsas, dinheiro fazendo dinheiro, sem controle, apenas regido pela voracidade do mercado. Por sua natureza, a especulação comporta sempre alto risco e vem submetida a desvios sistêmicos: à ganância de mais e mais ganhar, por todos os meios possíveis.


Os gigantes de Wall Street eram tão poderosos que impediam qualquer controle, seguindo apenas suas próprias regulações. Eles contavam com as informações antecipadas (Insider Information), manipulavam-nas, divulgavam boatos nos mercados, induziam-nos a falsas apostas e tiravam daí grandes lucros. Basta ler o livro do mega-especulador George Soros "A crise do capitalismo" para constatá-lo, pois ai conta em detalhes estas manobras que destroem a confiança e a verdade. Ambas eram sacrificadas sistematicamente em função do ganância dos especuladores. Tal sistema tinha que um dia ruir, por ser falso e perverso, o que de fato ocorreu.


A estratégia inicial norte-americana era injetar tanto dinheiro nos “ganhadores”(winner) para que a lógica continuasse a funcionar sem pagar nada por seus erros. Seria prolongar a agonia. Os europeus, recordando-se dos resquícios do humanismo das Luzes que ainda sobraram, tiveram mais sabedoria. Denunciaram a falsidade, puseram a campo o Estado como instância salvadora e reguladora e, em geral, como ator econômico direto na construção na infra-estutura e nos campos sensíveis da economia.Agora não se trata de refundar o neoliberalismo mas de inaugurar outra arquitetura econômica sobre bases não fictícias. Isto quer dizer, a economia deve ser capítulo da política (a tese clássica de Marx), não a serviço da especulação mas da produção e da adequada acumulação. E a política se regerá por critérios éticos de transparência, de eqüidade, de justa media, de controle democrático e com especial cuidado para com as condições ecológicas que permitem a continuidade do projeto planetário humano.


Por que a crise atual é crise de humanidade? Porque nela subjaz um conceito empobrecido de ser humano que só considera um lado dele, seu lado de ego. O ser humano é habitado por duas forças cósmicas: uma de auto-afirmação sem a qual ele desaparece. Aqui predomina o ego e a competição. A outra é de integração num todo maior sem o qual também desaparece. Aqui prevalece o nós e a cooperação. A vida só se desenvolve saudavelmente na medida em que se equilibram o ego com o nós, a competição com a cooperação. Dando rédeas só à competição do ego, anulando a cooperação, nascem as distorções que assistimos, levando à crise atual. Contrariamente, dando espaço apenas ao nós sem o ego, gerou-se o socialismo despersonalizante e a ruína que provocou.


Erros desta gravidade, nas condições atuais de interdepedência de todos com todos, nos podem liquidar. Como nunca antes temos que nos orientar por um conceito adequado e integrador do ser humano, por um lado individual-pessoal com direitos e por outro social-comunitário com limites e deveres. Caso contrário, nos atolaremos sempre nas crises que serão menos econômico-financeiras e mais crises de humanidade.


Leonardo Boff [via Direto da Redação]


li no Pavablog

terça-feira, outubro 28, 2008

e as pedras clamarão

Mário Soares

1.Toda a gente fala da crise, múltipla, como lhe tenho chamado. Porquê? Porque atinge todos. Começou, há muito tempo, com pés de lã, na América do Norte. A queda do dólar e o aumento exponencial do deficit foram sinais iniludíveis, que os economistas não quiseram entender. Depois, espalhou-se à União Europeia, cujos dirigentes pensavam que lhe poderiam escapar e chegaram a dizê-lo, imprudentemente. Depois, tornou-se global e vai repercutindo por todos os continentes. Como era possível ser de outro modo, em tempo de globalização desregulada, com os "paraísos fiscais", espalhados pelos lugares mais imprevistos, para que as especulações - e as negociatas - fossem menos conhecidas? Depois veio a recessão económica, tantas vezes negada por reputados economistas. Quando muito, admitiram um "abrandamento"... Mas agora foi oficialmente declarada nos Estados Unidos. E começa a ser admitida, como de "longa duração", para usar uma expressão cara ao historiador Fernand Braudel, na própria União Europeia.
A crise energética, artificialmente criada pela via especulativa - com o petróleo a atingir 150 dólares o barril, mais de três vezes do custo ao produtor - está agora de novo a descer, pelas mesmas artificiais razões especulativas. A crise alimentar é outro aspecto da crise e não tem especialmente a ver com o aumento crescente da pobreza, um dos traços fundamentais do sistema neoliberal. Mas sim com razões especulativas semelhantes às que estimularam e explicam as subidas e descidas do petróleo nas bolsas. Depois, a crise ambiental, denunciada no século passado e, nomeadamente, na Conferência do Rio, em 1992. Sobre ela tudo foi dito e pouco, muito pouco, foi feito. Excepto no que respeita à consciencialização das pessoas, quanto às ameaças que pesam sobre a humanidade, se não nos dispusermos a salvar a Terra.
E, finalmente, a mais grave de todas: crise moral, crise de valores ou melhor: da falta deles, a negação da ética, omitida nos comportamentos, pelo capitalismo especulativo, crise civilizacional, de fim de ciclo, dado o enfraquecimento do Estado, a impunidade da corrupção, a desvalorização do serviço público, numa sociedade individualista, egoísta e consumista, por excelência, em que conta, acima de tudo, o dinheiro - como supremo valor - sem importar como se adquire nem qual a sua origem. Se vem do tráfico ilegal da droga, da prostituição, da compra e venda de armas, incluindo nucleares, do crime organizado ou das especulações feitas através dos offshores, que têm por detrás deles "respeitáveis" senhores que gerem bancos, seguradoras e grandes empresas, auferem vencimentos multimilionários, prémios e indemnizações e são os mais próximos responsáveis - não os únicos - até agora impunes, da grande crise global e complexa com que nos debatemos.
O economista francês Daniel Cohen, numa entrevista recente concedida ao Le Monde 2, descreve os "dogmas" triunfantes nos anos de Thatcher (1978-90) e de Reagan (1981-89): auto-regulação do capitalismo, definhamento do Estado, deixar operar a "mão invisível" do mercado. No fundo era a receita pregada por Milton Friedman, o teórico do integralismo liberal, tão justamente criticado por Galbraith. Toda a teoria e a prática neoliberais daí decorrentes caíram por terra, desacreditadas, em poucas semanas, pela crise que estamos a viver. É, como diz Cohen, "o fim do mundo especulativo". Os nossos economistas neoliberais deixaram de falar. Quando muito, aconselham prudência, muita cautela. Talvez "caldos de galinha"... Não quiseram - ou não souberam - prever nada. E estão estonteados sem saber como combater a crise que se instala e gera a desconfiança e o pânico...
Os planos, ditos de "salvação", americano e europeu, são um remedeio - já o escrevi aqui, a semana passada - que pode acalmar as bolsas internacionais da impressionante turbulência em que têm vivido. Mas não resolve o problema de fundo. Porque protegem o sistema e não o querem mudar. E é necessário que mude, criando novos paradigmas, que tenha em vista uma "nova ordem económica mundial", regulamentada por princípios éticos, com uma forte dimensão social e uma constante preocupação ambiental.
Paul Krugman, que ganhou recentemente o Prémio Nobel da Economia, elogiou o plano do primeiro-ministro britânico, Gordon Brown, pelo seu corajoso intervencionismo estatal, que levou o Estado a comprar as acções dos bancos em dívida para reforçar a sua liquidez. A Europa e a própria América do Norte seguiram-no, relutantemente. Pudera: é o fim do neoliberalismo! Mas necessidade obriga... No entanto, não basta: "Reparar o sistema financeiro não impedirá a recessão", escreveu mais uma vez Georges Soros... Veremos, os próximos capítulos, desta tragédia global... com os olhos postos em 4 de Novembro, quando - esperemos - muito vai mudar.

quinta-feira, outubro 23, 2008

Felizes os que têm fome - Jorge Camargo

A crise financeira nos EUA impactou o mundo. Bolsas despencaram como nunca, os bancos tiveram suas estruturas abaladas e as pessoas se vêem perplexas e aturdidas.De repente, caminhões e mais caminhões de dinheiro começam a aparecer dos cofres bem-guardados dos governos das nações mais ricas e a gente ouve falar em bilhões e mais bilhões disponibilizados. E que chegam à casa dos trilhões…De onde apareceu tanto dinheiro meu Deus?Inevitável não pensar na fome no mundo, um problema crônico, aparentemente insolúvel, recorrente, persistente, já quase que integrado à nossa visão conformista da realidade, ecoando as palavras de Jesus, “os pobres sempre os tereis convosco”… Talvez porque ele conhecesse como ninguém o coração ganancioso do homem.O fato é que um pequeno porcentual de todos esses recursos disponibilizados com uma rapidez impressionante resolveria por completo o problema da fome no mundo.Surgem, é claro, as racionalizações.Os sistemas políticos e econômicos de muitos dos países mais afetados pela carestia impedem a ajuda pronta e definitiva.E assim seguimos, explicando o inexplicável, complicando o simples, dificultando o fácil e tornando a vida na terra uma expressão coletiva de esquizofrenia.Só nos resta a utopia de Jesus: “felizes os que têm fome…porque serão saciados”.

terça-feira, agosto 05, 2008

"neoliberalismo" para totós

tem tanto economista tentando explicar a vida dos pobres coitados,
mas já o grande poeta Chico Buarque traduzia o economês nas suas classes de economia de mercado 101, ou neoliberalismo 101, que na versão actual seria = neoliberalismo para totós.
cá vai:

O Malandro
>> Chico Buarque

O malandro na dureza Senta à mesa
Do café Bebe um gole
De cachaça Acha graça E dá no pé
O garçom No prejuízo Sem sorriso
Sem freguês De passagem
Pela caixa Dá uma baixa No português
O galego Acha estranho Que o seu ganho Tá um horror
Pega o lápis Soma os canos Passa os danos Pro distribuidor
Mas o frete Vê que ao todo Há engodo Nos papéis
E pra cima Do alambique Dá um trambique De cem mil réis
O usineiro Nessa luta Grita (ponte que partiu)
Não é idiota Trunca a nota Lesa o banco do Brasil
Nosso banco Tá cotado No mercado Exterior
Então taxa A cachaça A um preço Assustador
Mas os ianques Com seus tanques Têm bem mais o que fazer
E proíbem Os soldados Aliados de beber
A cachaça Tá parada Rejeitada No barril
O alambique Tem chilique Contra o banco do Brasil
O usineiro Faz barulho Com orgulho De produtor
Mas a sua Raiva cega Descarrega No carregador
Este chega Pro galego Nega arrego Cobra mais
A cachaça Tá de graça. Mas o frete, como é que faz?
O galego tá apertado pro seu lado não tá bom
Então deixa congelada a mesada do garçom
O garçom vê Um malandro Sai gritando Pega ladrão
E o malandro Autuado É julgado e condenado culpado Pela situação.